O problema do Brasil são os brasileiros
Mais do que um desabafo, a frase comporta um peso que ultrapassa a ocasião, um post no Facebook. É uma frase que soa como humildade cívica (todos somos culpados, ninguém está isento) mas que, olhada com mais cuidado, é filosoficamente ambígua, podendo significar tábula rasa de conceitos e acontecimentos muito mais profundos.
Num polo tenho em mente uma espécie de antropologia moral, vale dizer, há algo no caráter, na formação histórica ou cultural do brasileiro que gera ciclicamente líderes personalistas e um eleitorado disposto a segui-los, fanaticamente sempre.
Noutra ponta não posso cometer o crime que condeno em que lê, a ignorância do que já foi escrito praticamente sobre tudo, do entrevero de Deus e o Diabo na terra do sol ao último e inútil jogo de bola de uma seleção qualquer. Neste caso, minha escrita está montada numa tese de ciência política institucional: o Brasil não fracassou por vício de caráter coletivo, mas por não ter construído (ou por ter destruído) as estruturas que tornam o personalismo caro e a alternância de poder rotineira.
No post falo em “pecados a purgar” (moral) e, no mesmo contexto, em “espaços e omissões da direita” que permitiram o crescimento da “esquerda corrupta e quadrilheira” (institucional-histórico). Essa mistura não é um deslize, é o sintoma exato do problema que estou tentando nomear sem ainda ter o vocabulário técnico para separar as partes. É esse vocabulário que tento trazer agora, clareando ponto a ponto todas as frases. Até mesmo a citação de Caetano Veloso encontra amparo teórico e é por ela que começo.
“De perto, ninguém é normal”, é um paradoxo antigo mas descreve com precisão poética algo que Max Weber já havia descrito com precisão conceitual: a autoridade carismática depende de distância.
Para Weber, existem três tipos puros de dominação legítima: a tradicional (a autoridade do costume, do “sempre foi assim”), a legal-racional (a autoridade da regra, do cargo, da instituição) e a carismática (a autoridade da qualidade excepcional atribuída a uma pessoa).
O carisma, nessa formulação, não é uma propriedade objetiva do líder. É uma relação de crença entre líder e seguidores. O líder carismático só é carismático enquanto os seguidores o percebem como portador de algo extraordinário. E essa percepção é extremamente sensível à distância: funciona melhor como projeção do que como convivência.
Já em “Michelle dando voz a quem se aproximou de Bolsonaro e não via a hora de se afastar” vejo aquilo que Max Weber chama de desencantamento do carisma: a proximidade cotidiana revela a pessoa comum por trás da figura projetada, e a crença que sustentava a autoridade começa a ser corroída, corrosão retroalimentada por atritos mais constantes do que evidenciam as cenas públicas.
A beleza de uma boa teoria é sua validade muito além do tempo de vida de quem a formulou. Weber descreveu o que acontece depois: o problema da sucessão carismática, ou aquilo que ele chamou de Veralltäglichung des Charismas, a “rotinização” ou “cotidianização” do carisma. Flávio está em linha de Jair? Mantém o carisma? Isso é bom ou péssimo?
Todo movimento carismático enfrenta uma crise existencial quando o líder morre, adoece ou simplesmente perde o brilho: ou o carisma se transfere para um sucessor (por hereditariedade, por designação, por um novo processo de reconhecimento), ou se transforma em regra estável, por exemplo quatro anos de Presidência da República, ou o movimento simplesmente se desfaz, desmorona, se corrompe por dentro e por fora.
Imaginar Lula e Bolsonaro mortos, física e politicamente tem também um sentido mais preciso. Não é um desejo de morte real. É um experimento mental sobre rotinização: o que sobra da política brasileira quando se retira o carisma pessoal? Sobra alguma coisa institucional, ou sobra o vazio?
Como teoria pouca é bobagem, vamos nos afundar na vala de quem a cavou. Refiro-me a Ernst Kantorowicz e sua obra clássica sobre os “dois corpos do rei” (The King's Two Bodies, 1957, 604 páginas). Ernst é um historiador atípico, porque estudou teologia política medieval. Ele descreveu como a monarquia medieval resolveu o problema da continuidade do poder diante da mortalidade do monarca: distinguindo o corpo natural do rei (mortal, doente, sujeito a erro) do corpo político do rei (imortal, perfeito, que nunca morre, lembram da frase “o rei está morto, viva o rei”?). Essa ficção jurídica permitia que a autoridade sobrevivesse ao corpo.
O personalismo político contemporâneo faz o movimento inverso, e é isso que o torna estruturalmente frágil: ele funde os dois corpos em vez de separá-los. Lula não é apenas um presidente, é, para uma parte do eleitorado, o corpo político do lulismo. Bolsonaro não é apenas um ex-presidente, é o corpo político do bolsonarismo. Quando não há separação entre a pessoa e o projeto, a mortalidade natural (literal, mas também política; prisão, inelegibilidade, decadência de popularidade) ameaça arrastar consigo a continuidade institucional inteira.
Por isso o desejo, ainda que retórico, de “ver os dois mortos, física e politicamente” é mais interessante do que parece à primeira vista: é o desejo de forçar a separação entre corpo e projeto, para ver se o projeto — a esquerda, a direita, os valores que cada um alega representar — sobrevive à pessoa. Mortos os dois, teríamos condições de olhar mais atentamente para o que somos? Essa é, precisamente, a aposta kantorowicziana: sem o corpo carismático, resta o corpo político nu — e é preciso perguntar se ele tem substância própria ou se era só sombra do primeiro.
Agora vou ampliar um pouco as coisas. Num post anterior, bem curtinho, citei Eric Hoffer do qual extrai a frase sem filtro: “o fanático tem mais medo da liberdade do que da perseguição” (The True Believer, 1951, 198 páginas).
Hoffer não estava interessado em líderes e seu carisma. Ele estava interessado em seguidores. Sua tese central é perturbadora: os movimentos de massa (comunismo, fascismo, nacionalismo religioso, e por extensão os personalismos contemporâneos) são, em boa medida, intercambiáveis do ponto de vista psicológico de quem adere a eles. O que atrai o “crente verdadeiro” (the true believer) não é primariamente a doutrina, é a promessa de autoanulação: a chance de escapar de um eu frustrado, de uma vida sentida como fracassada ou vazia, fundindo-se a uma causa maior que o redime.
Segundo Hoffer, esses movimentos precisam de um “diabo” — um inimigo definido, odiável, que unifica os fiéis mais eficientemente do que qualquer programa positivo poderia fazer. E observa algo ainda mais relevante para o nosso caso: o crente verdadeiro muitas vezes está menos interessado no sucesso concreto da causa do que na intensidade da entrega a ela. Isso explica um fenômeno que intriga observadores externos ao bolsonarismo e ao lulismo: por que a fidelidade não é abalada mesmo diante de evidências claras, seja de corrupção, de mau caráter, vigarice, convenhamos atributos bemdesfavoráveis ao líder. Não é ingenuidade factual, é que o vínculo nunca foi, em primeiro lugar, com os fatos.
Se Weber explica o mecanismo da autoridade carismática (a crença na qualidade excepcional do líder) e Kantorowicz explica a estrutura dessa autoridade (a fusão perigosa entre corpo pessoal e corpo político), Hoffer explica por que uma sociedade produz, em quantidade, pessoas psicologicamente disponíveis para esse tipo de vínculo.
É aqui que desejo colocar a batata quente na mão de quem merece, os brasileiros. Para Hoffer, o material humano que alimenta movimentos de massa costuma vir de populações que sentem sua vida individual como vazia, frustrada ou sem sentido próprio, não quer dizer que sejam moralmente piores, é que estão mais disponíveis para a autoanulação coletiva. Isso desloca a pergunta de “qual é o defeito moral do brasileiro” para “que condições sociais e econômicas produzem, no Brasil, tanta disponibilidade para esse tipo de entrega”.
Num post ainda mais antigo citei Robert Dahl e o conceito de “Poliarquia”. Outro estudioso produzindo outro conjunto de estudos, no qual cita vários países, entre os quais o Brasil como. Está no livro “Poliarquia: Participação e Oposição” (1971, 292 páginas).
Dahl não estava interessado em saber se uma sociedade tem ou não “democracia pura”, um ideal que ele considerava, com razão, irrealizável e até um pouco inútil como ferramenta de análise. Estava interessado em algo mais mensurável: em que grau um regime combina duas dimensões independentes: Liberdade de Contestação Pública (ou competição, o grau em que a oposição pode organizar-se, competir e ter chance real de tirar os governantes do poder) e Grau de Participação ou Inclusão ( o grau em que a população tem direito de participar dessa contestação — votar, ser votada, organizar-se).
Um regime com alta contestação e alta inclusividade é o que Dahl chama de poliarquia, não “a” democracia perfeita, mas uma aproximação institucional funcional dela. E Dahl é preciso ao listar as garantias institucionais necessárias para que a poliarquia exista de fato: liberdade de organização, liberdade de expressão, direito de voto, elegibilidade para cargos públicos, direito de líderes políticos competirem por apoio e votos, fontes alternativas de informação, eleições livres e idôneas, e instituições que façam a política governamental depender efetivamente do voto e de outras formas de manifestação de preferência.
A ponte aqui é necessária. A noção de poliarquia tem (teria) o papel de antídoto estrutural para o problema que Weber, Kantorowicz e Hoffer descrevem em três camadas diferentes. Vamos a elas:
Contra a fusão weberiana entre carisma e autoridade, a poliarquia oferece rotinização institucional — regras que não dependem da pessoa: mandatos com prazo certo, eleições regulares, freios e contrapesos. É a materialização política daquilo que Weber chamava de Veralltäglichung.
Contra a fusão kantorowicziana entre o corpo pessoal e o corpo político do líder, a poliarquia oferece separação institucional entre cargo e pessoa: o cargo sobrevive ao ocupante, os partidos (quando fortes) sobrevivem aos líderes, a oposição tem garantia de existir mesmo perdendo eleições.
Contra a fome hofferiana de autoanulação em uma causa, a poliarquia não elimina a demanda psicológica, isso está além do alcance de qualquer desenho institucional, mas oferece canais múltiplos e concorrentes de pertencimento político, o que dilui a dependência de um único líder messiânico. Quanto mais fraca e fragmentada a vida partidária, mais o eleitor psicologicamente “disponível” (no sentido de Hoffer) tende a se ancorar em uma figura personalista, porque não há outro lugar razoável para depositar essa energia.
Dahl é claro em um ponto que costuma escapar ao debate público brasileiro: poliarquia é grau, não categoria binária. Não existe “Brasil é democracia” versus “Brasil não é democracia”. Existe o Brasil em algum ponto de um espectro de contestação e inclusividade, com avanços em uma dimensão (por exemplo, sufrágio universal, imprensa livre) e fragilidades crônicas em outra (partidos fracos, presidencialismo de coalizão hiperfragmentado, financiamento de campanha, captura de agências reguladoras).
O Brasil não é uma sociedade sem poliarquia. É uma poliarquia de baixa qualidade institucional, na qual o personalismo encontra brechas exatamente onde as garantias institucionais de Dahl estão mais fracas: partidos sem identidade programática estável, Judiciário politizado, imprensa fragmentada e polarizada, financiamento de campanha permeável a captura.
O resultado? Corrupção sistêmica, a principal causa de atraso material e moral dos brasileiros. Daqueles que vendem sua força de trabalho a preço módico para segurar uma bandeira que reforça a corrupção, aos endinheirados e botocudos togados que se acham donos do poder (Não vou aprofundar o conceito, está em Raymundo Faoro, Os donos do poder: Formação do patronato político brasileiro, 1958, 947 páginas na versão eletrônica, pode ser baixado de graça neste link: https://docs.google.com/file/d/0B-vWcDYCKP5sMjFhMWU3MmYtZWVjNC00Mjc4LTk2OWUtMDQ4M2VhYWJlOGY1/edit?hl=pt_BR&resourcekey=0-ML3_H2WjM1yD0_XGKTi4cg
O problema do Brasil é que os brasileiros ainda não decidiram, coletivamente, pagar o preço institucional de não precisar de heróis — o preço sendo partidos fortes o bastante para sobreviver aos seus líderes, um Judiciário que não vire arena de embate político, e uma imprensa plural o bastante para que a “distância” weberiana do carisma seja constantemente corroída por informação, em vez de reforçada por bolhas de rede social retroalimentadas por investigações de ocasião de uma PF a serviço de um lado, geralmente o mais corrrupto.
Num polo tenho em mente uma espécie de antropologia moral, vale dizer, há algo no caráter, na formação histórica ou cultural do brasileiro que gera ciclicamente líderes personalistas e um eleitorado disposto a segui-los, fanaticamente sempre.
Noutra ponta não posso cometer o crime que condeno em que lê, a ignorância do que já foi escrito praticamente sobre tudo, do entrevero de Deus e o Diabo na terra do sol ao último e inútil jogo de bola de uma seleção qualquer. Neste caso, minha escrita está montada numa tese de ciência política institucional: o Brasil não fracassou por vício de caráter coletivo, mas por não ter construído (ou por ter destruído) as estruturas que tornam o personalismo caro e a alternância de poder rotineira.
No post falo em “pecados a purgar” (moral) e, no mesmo contexto, em “espaços e omissões da direita” que permitiram o crescimento da “esquerda corrupta e quadrilheira” (institucional-histórico). Essa mistura não é um deslize, é o sintoma exato do problema que estou tentando nomear sem ainda ter o vocabulário técnico para separar as partes. É esse vocabulário que tento trazer agora, clareando ponto a ponto todas as frases. Até mesmo a citação de Caetano Veloso encontra amparo teórico e é por ela que começo.
“De perto, ninguém é normal”, é um paradoxo antigo mas descreve com precisão poética algo que Max Weber já havia descrito com precisão conceitual: a autoridade carismática depende de distância.
Para Weber, existem três tipos puros de dominação legítima: a tradicional (a autoridade do costume, do “sempre foi assim”), a legal-racional (a autoridade da regra, do cargo, da instituição) e a carismática (a autoridade da qualidade excepcional atribuída a uma pessoa).
O carisma, nessa formulação, não é uma propriedade objetiva do líder. É uma relação de crença entre líder e seguidores. O líder carismático só é carismático enquanto os seguidores o percebem como portador de algo extraordinário. E essa percepção é extremamente sensível à distância: funciona melhor como projeção do que como convivência.
Já em “Michelle dando voz a quem se aproximou de Bolsonaro e não via a hora de se afastar” vejo aquilo que Max Weber chama de desencantamento do carisma: a proximidade cotidiana revela a pessoa comum por trás da figura projetada, e a crença que sustentava a autoridade começa a ser corroída, corrosão retroalimentada por atritos mais constantes do que evidenciam as cenas públicas.
A beleza de uma boa teoria é sua validade muito além do tempo de vida de quem a formulou. Weber descreveu o que acontece depois: o problema da sucessão carismática, ou aquilo que ele chamou de Veralltäglichung des Charismas, a “rotinização” ou “cotidianização” do carisma. Flávio está em linha de Jair? Mantém o carisma? Isso é bom ou péssimo?
Todo movimento carismático enfrenta uma crise existencial quando o líder morre, adoece ou simplesmente perde o brilho: ou o carisma se transfere para um sucessor (por hereditariedade, por designação, por um novo processo de reconhecimento), ou se transforma em regra estável, por exemplo quatro anos de Presidência da República, ou o movimento simplesmente se desfaz, desmorona, se corrompe por dentro e por fora.
Imaginar Lula e Bolsonaro mortos, física e politicamente tem também um sentido mais preciso. Não é um desejo de morte real. É um experimento mental sobre rotinização: o que sobra da política brasileira quando se retira o carisma pessoal? Sobra alguma coisa institucional, ou sobra o vazio?
Como teoria pouca é bobagem, vamos nos afundar na vala de quem a cavou. Refiro-me a Ernst Kantorowicz e sua obra clássica sobre os “dois corpos do rei” (The King's Two Bodies, 1957, 604 páginas). Ernst é um historiador atípico, porque estudou teologia política medieval. Ele descreveu como a monarquia medieval resolveu o problema da continuidade do poder diante da mortalidade do monarca: distinguindo o corpo natural do rei (mortal, doente, sujeito a erro) do corpo político do rei (imortal, perfeito, que nunca morre, lembram da frase “o rei está morto, viva o rei”?). Essa ficção jurídica permitia que a autoridade sobrevivesse ao corpo.
O personalismo político contemporâneo faz o movimento inverso, e é isso que o torna estruturalmente frágil: ele funde os dois corpos em vez de separá-los. Lula não é apenas um presidente, é, para uma parte do eleitorado, o corpo político do lulismo. Bolsonaro não é apenas um ex-presidente, é o corpo político do bolsonarismo. Quando não há separação entre a pessoa e o projeto, a mortalidade natural (literal, mas também política; prisão, inelegibilidade, decadência de popularidade) ameaça arrastar consigo a continuidade institucional inteira.
Por isso o desejo, ainda que retórico, de “ver os dois mortos, física e politicamente” é mais interessante do que parece à primeira vista: é o desejo de forçar a separação entre corpo e projeto, para ver se o projeto — a esquerda, a direita, os valores que cada um alega representar — sobrevive à pessoa. Mortos os dois, teríamos condições de olhar mais atentamente para o que somos? Essa é, precisamente, a aposta kantorowicziana: sem o corpo carismático, resta o corpo político nu — e é preciso perguntar se ele tem substância própria ou se era só sombra do primeiro.
Agora vou ampliar um pouco as coisas. Num post anterior, bem curtinho, citei Eric Hoffer do qual extrai a frase sem filtro: “o fanático tem mais medo da liberdade do que da perseguição” (The True Believer, 1951, 198 páginas).
Hoffer não estava interessado em líderes e seu carisma. Ele estava interessado em seguidores. Sua tese central é perturbadora: os movimentos de massa (comunismo, fascismo, nacionalismo religioso, e por extensão os personalismos contemporâneos) são, em boa medida, intercambiáveis do ponto de vista psicológico de quem adere a eles. O que atrai o “crente verdadeiro” (the true believer) não é primariamente a doutrina, é a promessa de autoanulação: a chance de escapar de um eu frustrado, de uma vida sentida como fracassada ou vazia, fundindo-se a uma causa maior que o redime.
Segundo Hoffer, esses movimentos precisam de um “diabo” — um inimigo definido, odiável, que unifica os fiéis mais eficientemente do que qualquer programa positivo poderia fazer. E observa algo ainda mais relevante para o nosso caso: o crente verdadeiro muitas vezes está menos interessado no sucesso concreto da causa do que na intensidade da entrega a ela. Isso explica um fenômeno que intriga observadores externos ao bolsonarismo e ao lulismo: por que a fidelidade não é abalada mesmo diante de evidências claras, seja de corrupção, de mau caráter, vigarice, convenhamos atributos bemdesfavoráveis ao líder. Não é ingenuidade factual, é que o vínculo nunca foi, em primeiro lugar, com os fatos.
Se Weber explica o mecanismo da autoridade carismática (a crença na qualidade excepcional do líder) e Kantorowicz explica a estrutura dessa autoridade (a fusão perigosa entre corpo pessoal e corpo político), Hoffer explica por que uma sociedade produz, em quantidade, pessoas psicologicamente disponíveis para esse tipo de vínculo.
É aqui que desejo colocar a batata quente na mão de quem merece, os brasileiros. Para Hoffer, o material humano que alimenta movimentos de massa costuma vir de populações que sentem sua vida individual como vazia, frustrada ou sem sentido próprio, não quer dizer que sejam moralmente piores, é que estão mais disponíveis para a autoanulação coletiva. Isso desloca a pergunta de “qual é o defeito moral do brasileiro” para “que condições sociais e econômicas produzem, no Brasil, tanta disponibilidade para esse tipo de entrega”.
Num post ainda mais antigo citei Robert Dahl e o conceito de “Poliarquia”. Outro estudioso produzindo outro conjunto de estudos, no qual cita vários países, entre os quais o Brasil como. Está no livro “Poliarquia: Participação e Oposição” (1971, 292 páginas).
Dahl não estava interessado em saber se uma sociedade tem ou não “democracia pura”, um ideal que ele considerava, com razão, irrealizável e até um pouco inútil como ferramenta de análise. Estava interessado em algo mais mensurável: em que grau um regime combina duas dimensões independentes: Liberdade de Contestação Pública (ou competição, o grau em que a oposição pode organizar-se, competir e ter chance real de tirar os governantes do poder) e Grau de Participação ou Inclusão ( o grau em que a população tem direito de participar dessa contestação — votar, ser votada, organizar-se).
Um regime com alta contestação e alta inclusividade é o que Dahl chama de poliarquia, não “a” democracia perfeita, mas uma aproximação institucional funcional dela. E Dahl é preciso ao listar as garantias institucionais necessárias para que a poliarquia exista de fato: liberdade de organização, liberdade de expressão, direito de voto, elegibilidade para cargos públicos, direito de líderes políticos competirem por apoio e votos, fontes alternativas de informação, eleições livres e idôneas, e instituições que façam a política governamental depender efetivamente do voto e de outras formas de manifestação de preferência.
A ponte aqui é necessária. A noção de poliarquia tem (teria) o papel de antídoto estrutural para o problema que Weber, Kantorowicz e Hoffer descrevem em três camadas diferentes. Vamos a elas:
Contra a fusão weberiana entre carisma e autoridade, a poliarquia oferece rotinização institucional — regras que não dependem da pessoa: mandatos com prazo certo, eleições regulares, freios e contrapesos. É a materialização política daquilo que Weber chamava de Veralltäglichung.
Contra a fusão kantorowicziana entre o corpo pessoal e o corpo político do líder, a poliarquia oferece separação institucional entre cargo e pessoa: o cargo sobrevive ao ocupante, os partidos (quando fortes) sobrevivem aos líderes, a oposição tem garantia de existir mesmo perdendo eleições.
Contra a fome hofferiana de autoanulação em uma causa, a poliarquia não elimina a demanda psicológica, isso está além do alcance de qualquer desenho institucional, mas oferece canais múltiplos e concorrentes de pertencimento político, o que dilui a dependência de um único líder messiânico. Quanto mais fraca e fragmentada a vida partidária, mais o eleitor psicologicamente “disponível” (no sentido de Hoffer) tende a se ancorar em uma figura personalista, porque não há outro lugar razoável para depositar essa energia.
Dahl é claro em um ponto que costuma escapar ao debate público brasileiro: poliarquia é grau, não categoria binária. Não existe “Brasil é democracia” versus “Brasil não é democracia”. Existe o Brasil em algum ponto de um espectro de contestação e inclusividade, com avanços em uma dimensão (por exemplo, sufrágio universal, imprensa livre) e fragilidades crônicas em outra (partidos fracos, presidencialismo de coalizão hiperfragmentado, financiamento de campanha, captura de agências reguladoras).
O Brasil não é uma sociedade sem poliarquia. É uma poliarquia de baixa qualidade institucional, na qual o personalismo encontra brechas exatamente onde as garantias institucionais de Dahl estão mais fracas: partidos sem identidade programática estável, Judiciário politizado, imprensa fragmentada e polarizada, financiamento de campanha permeável a captura.
O resultado? Corrupção sistêmica, a principal causa de atraso material e moral dos brasileiros. Daqueles que vendem sua força de trabalho a preço módico para segurar uma bandeira que reforça a corrupção, aos endinheirados e botocudos togados que se acham donos do poder (Não vou aprofundar o conceito, está em Raymundo Faoro, Os donos do poder: Formação do patronato político brasileiro, 1958, 947 páginas na versão eletrônica, pode ser baixado de graça neste link: https://docs.google.com/file/d/0B-vWcDYCKP5sMjFhMWU3MmYtZWVjNC00Mjc4LTk2OWUtMDQ4M2VhYWJlOGY1/edit?hl=pt_BR&resourcekey=0-ML3_H2WjM1yD0_XGKTi4cg
O problema do Brasil é que os brasileiros ainda não decidiram, coletivamente, pagar o preço institucional de não precisar de heróis — o preço sendo partidos fortes o bastante para sobreviver aos seus líderes, um Judiciário que não vire arena de embate político, e uma imprensa plural o bastante para que a “distância” weberiana do carisma seja constantemente corroída por informação, em vez de reforçada por bolhas de rede social retroalimentadas por investigações de ocasião de uma PF a serviço de um lado, geralmente o mais corrrupto.

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